Por Felipe Mathias
Arthur Friedenreich nasceu em São Paulo, no dia 18 de julho de 1892. Seu pai, Oscar Friedenreich, era um engenheiro e imigrante alemão pertencente à classe média ascendente. Sua mãe, Mathilde, era uma mulher preta brasileira, lavadeira e filha de africanos escravizados.
Essa mistura deu a ele uma condição ambígua em uma sociedade estruturalmente racista: Arthur herdou os olhos verdes e o sobrenome forte do pai, mas também a pele retinta e os cabelos crespos da mãe.
No início do século XX, o futebol no Brasil era um esporte estritamente amador, aristocrático e elitista. Trazido da Inglaterra por Charles Miller, era praticado apenas pela alta sociedade branca, e os negros e pobres eram expressamente proibidos de frequentar os clubes.
A "chave" para Friedenreich romper esse universo fechado foi a ascendência de seu pai. Graças à origem alemã de Oscar, o jovem Arthur, aos 17 anos, conseguiu ser aceito no Sport Club Germânia (atual Esporte Clube Pinheiros) em 1909.
Diferente dos jovens ricos que praticavam um jogo duro, formal e engessado, "Fried" — como era chamado — aprendeu a jogar bola nas várzeas e ruas de São Paulo.
Como os jogadores brancos costumavam dar trancos violentos e cargas corporais nele por ser preto, Fried desenvolveu uma técnica de drible curto e desvios rápidos para proteger o próprio corpo. Sem saber, com aquela ginga de sobrevivência, ele estava inventando o "futebol-arte" e o clássico drible brasileiro.
Friedenreich rodou por vários clubes de destaque, incluindo o Mackenzie College, o Ypiranga, o Club Athletico Paulistano e o Palestra Itália (atual Palmeiras). Rapidamente, tornou-se uma máquina de fazer gols e o centro das atenções do esporte.
Friedenreich esteve presente, inclusive, em um momento fundacional: o primeiro jogo da história da Seleção Brasileira, em 1914, contra o Exeter City da Inglaterra.
Contudo, o momento em que ele se transformou em um mito indiscutível aconteceu no Campeonato Sul-Americano de 1919 (atual Copa América), sediado no Rio de Janeiro. Na finalíssima contra o Uruguai, a partida estava empatada e extenuante. Na prorrogação, Fried marcou o gol do título, garantindo a primeira grande conquista do futebol nacional.
Chocados com a garra, a valentia e a velocidade do brasileiro, os torcedores uruguaios o apelidou de "El Tigre". E após uma excursão brilhante com o Paulistano pela Europa, a imprensa francesa o coroou em definitivo como o "Rei do Futebol".
Apesar de ser o herói da pátria nas páginas dos jornais, Friedenreich nunca foi plenamente aceito pela elite que comandava o esporte. Por ser um homem preto em um ambiente que rejeitava a sua cor, ele viveu episódios humilhantes de racismo.
Nos primeiros anos da sua carreira, para poder entrar em campo sem chocar os diretores e torcedores aristocratas, Fried passava por um doloroso processo estético antes de cada partida.
Ele aplicava pó de arroz no rosto para clarear a pele e gastava muito tempo alisando os cabelos crespos com produtos químicos, prendendo-os firmemente com uma faixa ou redinha.
Muitas vezes, ele atrasava a entrada do time em campo porque o cabelo ainda não havia atingido o padrão "perfeito" exigido pela branquitude da época.
O ápice do racismo oficial ocorreu em 1921. Às vésperas do Campeonato Sul-Americano na Argentina, o então presidente do Brasil, Epitácio Pessoa, emitiu uma recomendação explícita à confederação de futebol: para preservar a "imagem diplomática" do Brasil no exterior, a seleção só deveria enviar jogadores brancos.
Friedenreich, o melhor jogador do país, foi barrado e proibido de viajar por causa de sua cor. Sem o seu craque, o Brasil fracassou retumbantemente no torneio.
Em um jogo posterior na Argentina, em 1925, as tensões raciais transbordaram dentro de campo. Fried sofreu uma falta violentíssima, sendo chutado nas costas por um zagueiro argentino quando estava prestes a marcar um gol.
Ao reclamar da agressão, torcedores locais invadiram o gramado disparando insultos racistas pesados contra ele e toda a delegação brasileira, em um cenário de hostilidade generalizada na imprensa e nas arquibancadas locais.
Uma das maiores frustrações na carreira de "El Tigre" foi nunca ter disputado uma Copa do Mundo. Em 1930, na histórica primeira edição do torneio, Friedenreich estava em plena atividade, mas um racha institucional entre as ligas do Rio de Janeiro e de São Paulo culminou em um boicote que impediu a convocação de atletas de clubes paulistas.
Sem Friedenreich em campo para liderar o ataque, a Seleção Brasileira viajou incompleta para o Uruguai e acabou eliminada precocemente, deixando uma lacuna eterna na biografia do primeiro Rei do Futebol.
Friedenreich continuou jogando em alto nível até os 43 anos, se aposentando em 1935 vestindo a camisa do Flamengo. Após pendurar as chuteiras, trabalhou como funcionário de uma companhia de cerveja e viveu de forma modesta. Enfrentou a velhice sofrendo com o Mal de Parkinson e com lapsos de memória, vindo a falecer em 6 de setembro de 1969, aos 77 anos.
Existe uma célebre e histórica polêmica sobre as estatísticas de Fried. Algumas contabilidades da época afirmavam que ele teria marcado 1.329 gols ao longo da carreira, número que o colocaria acima de Pelé como o maior artilheiro de todos os tempos.
Embora registros modernos de historiadores apontem um número menor — por volta de 550 gols, devido à escassez de súmulas oficiais na era amadora —, o mito do "milésimo gol antes de Pelé" permanece vivo.
O verdadeiro legado de Arthur Friedenreich, contudo, não está nos números, mas no fato de ele ter aberto as portas do futebol para os pretos e os pobres no Brasil. Sem o pioneirismo, a resiliência e o sofrimento silencioso de "El Tigre", o Brasil jamais teria conhecido Leônidas da Silva, Garrincha ou Pelé.
Fonte: FOTOS E VÍDEOS ANTIGOS

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