Torcedores noruegueses sentados em fileiras, braços em sincronia, simulavam uma remada coletiva. Comemoração que chegou até o campo de jogo com os jogadores fazendo desse mesmo jeito, liderados pelo meia Martin Ødegaard. Mas a imagem abriu uma discussão maior. Por que outros países nórdicos não se utilizam tanto da estética viking como forma de orgulho nacional?
A chamada “remada viking” ganhou forma antes da Copa com Ole Frøystad, professor de ensino fundamental conhecido como Senhor Row Row. Inspirado na força do canto do Rosenborg no Estádio Lerkendal, ele levou a ideia à associação de torcedores noruegueses, que transformou o gesto em marca da seleção.
Para entender a tensão, é preciso começar pelo básico: “viking” não era uma nacionalidade. Não existia uma “nação viking”. O termo aparece ligado a atividades marítimas, como viajar, comerciar, pilhar, colonizar e guerrear fora da Escandinávia. Os vikings vinham de áreas hoje associadas principalmente à Noruega, Dinamarca e Suécia. Mas a Escandinávia medieval não era um bloco homogêneo. Havia chefes locais, agricultores, artesãos, comerciantes, navegadores, guerreiros, pessoas livres e pessoas escravizadas.
A imagem popular reduziu esse mundo a homens armados, loiros, violentos e com capacetes de chifres. A própria arqueologia desmonta parte desse clichê. O Museu Nacional da Dinamarca afirma que há apenas um capacete preservado da Era Viking, encontrado na Noruega, e ele não tinha chifres.
Ao mesmo tempo, a versão heroica também é incompleta. Os vikings não foram apenas aventureiros, exploradores ou ancestrais corajosos. Eles foram uma sociedade marítima sofisticada, mas também marcada por hierarquia, escravidão, pilhagem e violência.
O fascínio tem base histórica. Os navios vikings eram leves, rápidos e adaptados tanto ao mar aberto quanto a rios e águas rasas. Essa tecnologia ajudou a conectar regiões distantes e permitiu viagens, ataques, comércio e assentamentos em áreas muito diferentes. Vikings ligados ao espaço norueguês tiveram papel importante na expansão pelo Atlântico Norte, em áreas hoje da Islândia, Groenlândia, Ilhas Faroe, Escócia e Irlanda.
Um ensaio fotográfico da seleção também exemplifica como a Noruega exalta esse passado e o leva para além da remada, dos museus e do turismo. Ao vestir jogadores com roupas, escudos e machados inspirados no imaginário viking, a campanha misturou esporte, patrimônio, marketing e orgulho coletivo, aumentando a sensação de que ignoram o lado negativo dessa história.
Mas a violência não foi só um detalhe. O ataque ao mosteiro de Lindisfarne, em 793, é lembrado como um marco simbólico da Era Viking e causou choque na Europa cristã. Cerca de 100 homens invadiram o local, destruíram as estruturas, sequestraram e abusaram sexualmente de mulheres, além de causarem diversas mortes. O Museu Nacional da Dinamarca afirma que escravizados, chamados “thralls”, estavam entre as mercadorias mais importantes negociadas por vikings, capturados sobretudo em expedições à Europa Oriental e às Ilhas Britânicas.
A reação nos outros países nórdicos à “remada norueguesa” mostrou que o símbolo também produz ruídos regionalmente. Jogadores suecos, como o zagueiro Victor Lindelöf, trataram a remada com distância e ironia. Na Dinamarca, jornalistas classificaram a festa norueguesa como algo incômodo e reducionista para a cultura nórdica.
A diferença com a Suécia é central. A Suécia não apaga os vikings. A Suécia tem museus, objetos, pedras rúnicas, sítios arqueológicos e turismo histórico. Mas a Suécia costuma tratar esse passado de forma menos épica. A narrativa sueca também destaca conquistas de rotas comerciais, mas lida de forma mais crítica com o passado violento desses grupos. A Suécia tende a ser mais crítica com o passado violento desses grupos, não tratantando como um “mito fundador”.
Ainda há uma camada político-partidária nessa relação. Símbolos nórdicos, runas e referências vikings já foram usados por grupos supremacistas brancos e de direita.
Essa apropriação não significa que todo uso de símbolos vikings seja extremista. Uma torcida fazendo uma remada não é, por si só, um ato ultranacionalista. Mas a história recente mostra que imagens nórdicas podem ser deslocadas para discursos de pureza da raça, pureza do sangue, masculinidade guerreira e exclusão social e racial.
Por tudo isso, quem busca estudar o passado desses grupos, passa a tratar os vikings com mais cuidado. Portanto, a remada norueguesa não celebra diretamente saques, abusos sexuais, escravidão ou massacres. Mas ela se apoia em uma memória seletiva, como quase toda memória de formação nacional. O que torna compreensível que algumas pessoas se incomodem com isso.
Fonte: PELEJA

0 Comentários