A Espanha tem uma relação complexa com a população que não vive na capital Madri, e isso acaba se refletindo na torcida pela seleção nacional. Desde 1978, o território é dividido em comunidades autônomas, que funcionam de forma diferente da divisão entre cidades e estados que existe no Brasil.
Essa reorganização do Estado espanhol foi a solução encontrada durante a transição para a democracia, depois da ditadura, para responder às reivindicações das diferentes identidades nacionais existentes no país. Atualmente, a Espanha tem 17 comunidades autônomas (entre elas, Catalunha, País Basco, Galícia e Navarra), além de duas cidades autônomas, Ceuta e Melilla, que ficam geograficamente na África.
A Constituição Espanhola garante a unidade nacional, mas delega boa parte do poder político, legislativo e administrativo a esses territórios. Cada comunidade tem seu próprio Parlamento e tem autonomia para gerenciar a educação, saúde, cultura, turismo, entre outros, enquanto o governo de Madri fica responsável por questões de interesse nacional.
Apesar da existência de movimentos independentistas, a convivência entre essas comunidades e o governo central é hoje relativamente pacífica - um cenário muito diferente do período da ditadura franquista (1939-1975). Durante os quase 40 anos do regime, o general Francisco Franco reprimiu manifestações de autonomia e independência vindas desses povos.
Naquele período, o uso de idiomas regionais, como o catalão e o basco, foi proibido em espaços públicos, na mídia e na educação, com a imposição do castelhano como a única língua oficial. Símbolos, bandeiras e instituições de autogoverno também foram abolidos, enquanto líderes nacionalistas e ativistas foram presos, exilados ou executados.
Por causa desse contexto histórico, uma parcela dos torcedores rejeita a seleção espanhola, chegando a boicotar transmissões ou a torcer abertamente contra o time em torneios internacionais. Esse é um dos motivos pelos quais a Real Federação Espanhola de Futebol (RFEF) historicamente evita marcar jogos oficiais da seleção principal em cidades como Barcelona e Bilbao, para diminuir o risco de vaias ao hino nacional e de manifestações políticas nas arquibancadas.
Vídeos publicados nas redes sociais mostram essa tensão na prática. Maider Etxebarria, prefeita de Vitoria-Gasteiz, capital do País Basco, anunciou que um telão será instalado na cidade para que a população acompanhe a final contra a Argentina, mas a decisão gerou reações divididas.
Enquanto alguns torcedores afirmaram que não pretendem apoiar a seleção espanhola, outros disseram que vão torcer pela equipe, mas ressaltaram que a situação seria diferente caso existisse uma seleção basca oficial reconhecida pela Fifa.
Esse sentimento também se relaciona com a própria composição do elenco espanhol. Lamine Yamal nasceu na Catalunha; Fabián Ruiz, na Andaluzia; Pedri e Yéremy Pino, nas Ilhas Canárias; Borja Iglesias, na Galícia; e Nico Williams e Mikel Merino, no País Basco.
Por isso, tem quem diga que não torce pela Espanha em si, mas pelo jogador que representa a comunidade onde nasceu.
Apesar disso, os números indicam que as gerações mais jovens já não estão tão conectadas aos movimentos independentistas. Uma análise divulgada em 2025 pela Agência Catalã de Notícias (ACN) mostrou que a porcentagem de catalães entre 18 e 24 anos favoráveis à independência caiu de 47% para 27% ao longo de uma década.
A final da Copa mostra que as seleções nacionais também funcionam como um espelho da estrutura social e política dos países que representam. Em um Estado formado por tantas identidades históricas, idiomas e memórias, a relação com a camisa da seleção dificilmente seria uniforme.
Fonte: PELEJA

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