O SUPERSTICIOSO ABÍLIO DESPENCOU DO TRAVESSÃO

FOTOS: 1- NÁUTICO, Torneio-Início de 1961, na Ilha do Retiro. Em pé, Nancildo, Lula Vasques, Múcio, Zé Maria, Clóvis e Hélmiton; agachados, Luís Carlos, Walter Prado, ABÍLIO, Ênio Andrade e Fernando Bidé. (Reprodução do livro “Náutico, a História em Fotos”, de Carlos Celso Cordeiro, em memória. 2- SPORT no Torneio de Nova York em 1963: em pé, Alemão, Valter Serafim, Leduar, Baixa, Tomires e Nenzinho; agachados, Garrinchinha, Djalma, Fescina, ABÍLIO e Bentancor (Nosso Arquivo).


MUNDO DA BOLA 


Por Lenivaldo Aragão

O futebol é um balaio de superstição. Hoje muitas das velhas manias já foram engolidas pelo tempo, mas ainda existe uma mistura de fé e crendice. Muito jogador tem o cuidado de só entrar em campo pisando com o pé direito. Outros não deixam de se benzer. Muitos olham imediatamente para o céu em momento de contrição quando fazem um gol. Nada contra cada um com seu ritual.
Quem conheceu de perto o técnico Palmeira (José Mariano Carneiro Pessoa), recifense da gema, sabia de suas constantes visitas ao famoso pai-de-santo Zé da Bola em semana de clássico. Se você começasse assistindo a um jogo a seu lado, ele seria até capaz de chamar a Rádio Patrulha para lhe agarrar, caso o amigo resolvesse trocar de lugar. “Faça isso não, assim você quebra a corrente”, suplicava. Duque, o mineiro Davi Ferreira estava constantemente apelando para o sobrenatural. Tinha o hábito de usar uma meia branca e outra preta, por exemplo. Durante o campeonato vestia em todos os jogos a mesma camisa da estreia, a qual, no fim da competição já estava encardida por falta de lavagem. Coisa de um supersticioso. Palmeira e Duque foram campeões pernambucanos pelos três grandes, Náutico, Santa Cruz e Sport.

O célebre goleiro Manoelzinho, que brilhou no Sport e no Náutico, tinha a mania de, protegido por uma roda de jogadores, urinar num dos postes de uma das barras antes do início da partida. Se por um motivo ou por outro não conseguisse cumprir seu cerimonial, o famoso caruaruense deixava o time todo preocupado. É que seus companheiros sabiam que iriam contar com um goleiro psicologicamente abalado.

Voltando aos técnicos, Duque com suas mil e uma mumunhas gostava de organizar sessões extras na concentração, comandadas por Pai Edu, Dona Maria etc., ou outros pais e mães-de-santo convidado/as pelo dublê de dirigente e treinador dos juvenis, o comerciante Waldomiro Silva. Ninguém era obrigado a acreditar, avisava Duque, que não aceitava pelo menos um riso de algum jogador ou funcionário do clube.

O sobrenatural tem tanta força no futebol, que o técnico Osvaldo Brandão, quando ia decidir um título importante, recorria ao seu amigo, Waldomiro Silva, que estava sempre apelando para as forças extraterrenas a fim de “ganhar” os jogos para seu Santa Cruz ou para o time dos amigos, como era o caso de Brandão. A quase três mil quilômetros de distância, Waldó procurava dar aquela ajuda ao velho Brandão, que a boleirada na intimidade chamava de Caçamba. Numa ocasião Waldó, como era tratado pelos mais íntimos, chegou até a despachar para o correligionário um carcará por via aérea – se desse o endereço para a feroz ave de rapina bater as asas e sair por aí por conta própria, a encomenda certamente não chegaria ao seu destino. Essa história Waldomiro contou a mim e a Zé Teixeira, ex-presidente do Central, num alvorecer no calçadão de Boa Viagem, numa sexta-feira pré-carnaval, quando a turma mais chegada nos anos aguardava mais uma saída do divertido e saudoso CRI (Clube dos Rapazes Inocentes).

No início dos anos 60 havia um centroavante no Palmeiras, chamado Abílio, que depois veio defender o Náutico e vestiu também a camisa do Sport. O técnico palmeirense era justamente Osvaldo Brandão, gaúcho, como Abílio. Este, a exemplo do ‘patrão’ tinha suas manias. Houve uma época em que Abílio não vinha encontrando o caminho do gol, e a torcida do Palmeiras já estava por conta. Um belo dia, às vésperas de um jogo contra o Noroeste, pelo Campeonato Paulista, Abílio procurou Brandão.

– Sabe, chefe, quando eu tô numa fase braba como essa, só faço gol se subir na trave à noite e passar um tempinho pensativo.

O técnico mesmo sendo do ramo, achou a situação meio esquisita, mas topou a parada. Finalmente, na situação em que o centroavante se encontrava, tudo o que viesse seria lucro. Ficou acertado que naquela noite mesmo, Abílio subiria numa das barras do Parque Antártica, o reduto palmeirense. As traves não eram roliças como hoje, mas quadradas, o que facilitaria o cumprimento da mandinga. Assim, no sábado, à noite com o auxílio de uma escada, Abílio subiu no travessão, ficando lá um tempão, concentrado, fazendo suas promessas e orações.

Não deu outra. No dia seguinte, Abílio fez as pazes com o gol, e o Palmeiras meteu três no Noroeste. O centroavante ficou feliz, Osvaldo Brandão mais ainda. Claro que a imprensa não sabia e o assunto circulava muito reservadamente entre os jogadores. O jogo seguinte era contra a Portuguesa, um clássico. Desta vez foi o próprio Brandão quem estimulou Abílio a subir no travessão.

O centroavante foi lá, mas certamente não estava de bem com as entidades extraterrestres que mexem com o futebol. Depois de uma boa curtida lá em cima, Abílio deu um tombo e despencou. Na queda torceu o tornozelo e ficou dois meses fora de circulação. Além de perder a posição, teve que suportar a gozação dos companheiros. Daí para frente, Abílio nunca mais quis saber de ficar suspenso, preferindo apelar para as entidades do chão mesmo. Por uma questão de segurança física.



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