A inacreditável história do país que levou a ditadura para dentro do Mundial

Por Renato Igarashi

Imagina uma Copa do Mundo que mais parece um filme de terror e espionagem. Foi exatamente isso que rolou com a seleção do Haiti no Mundial de 1974 na Alemanha Ocidental. A delegação do Haiti tinha também os “Tonton Macoutes”, a temida e cruel polícia secreta do ditador Jean-Claude “Baby Doc”, que viajou junto para controlar cada passo do time.

O Haiti vivia uma ditadura brutal comandada pela família Duvalier. Primeiro com o Papa Doc e depois com o filho, Baby Doc, eles usavam os Tonton Macoutes para espalhar o terror, sequestrar e eliminar qualquer oposição. O futebol era só mais uma ferramenta de pura propaganda para tentar limpar a imagem do governo lá fora.

O país já tinha uma relação sombria com o esporte. Na Copa de 1950, o haitiano Joe Gaetjens (que jogava pelos EUA) fez o gol histórico que derrubou a Inglaterra. Anos depois, de volta ao Haiti para viver uma vida tranquila, ele foi sequestrado pela polícia de Papa Doc apenas porque seus irmãos eram da oposição política. Ele desapareceu para sempre nos porões da ditadura.

Aí chegamos na Copa de 1974 e, no jogo contra a poderosa Itália, o atacante Sanon fez um golaço, quebrando uma invencibilidade de mais de mil minutos do lendário goleiro italiano Dino Zoff. A Itália acabou virando a partida, mas aquele momento mágico foi o auge do futebol caribenho e encheu a nação de orgulho.

Mas a alegria durou pouquíssimo. Logo após o jogo, o zagueiro haitiano Ernst Jean-Joseph foi pego no exame antidoping por usar um estimulante e virou o primeiro jogador da história das Copas a ser suspenso por isso. Para o mundo, era só uma quebra de regras esportivas; para o ditador Baby Doc, foi uma humilhação imperdoável que manchava a imagem de seu governo perfeito.

A reação foi imediata e assustadora. Os agentes da ditadura infiltrados na comissão técnica invadiram a concentração do time lá em Munique. Ignorando as leis alemãs, eles arrastaram o zagueiro a gritos, bateram muito nele e o trancaram num hotel antes de despachá-lo à força num avião direto para o Haiti.

E o que a FIFA fez com o sequestro? Simplesmente lavou as mãos e abafou o caso. O governo alemão também não interferiu para não criar uma crise diplomática.

Enquanto isso, o resto da seleção haitiana entrou em pânico. Aterrorizados e com medo de morrer, os jogadores entraram em campo destruídos psicologicamente no jogo seguinte e levaram uma surra histórica de 7 a 0 da Polônia. O regime forçou Jean-Joseph a ligar do Haiti para os colegas na Alemanha, só para provar que estava vivo e evitar que o time inteiro fugisse.

Por um verdadeiro milagre, ele não teve o mesmo fim trágico de Gaetjens: o zagueiro sobreviveu ao castigo de Baby Doc, voltou a jogar pela seleção anos depois e faleceu de causas naturais só em 2020.

(Texto de @jtheophilo no Instagram)


Fonte: Todas as Copas do Mundo




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